Conto
Quarenta e Dois
— Quem é você? — perguntou o homem ao entrar lentamente pela porta.
O desconhecido não respondeu de imediato.
Permanecia sentado à mesa, de costas para a entrada.
A luz amarelada da luminária desenhava sua silhueta imóvel. Lá fora, o vento assobiava entre as frestas da velha janela.
— Não se lembra de mim, Theodore?
A voz era calma.
Familiar.
E isso era impossível.
Theodore permaneceu imóvel junto à porta.
Aquela era uma das noites mais frias do inverno. A respiração do homem sentado surgia em pequenas nuvens brancas, dissipando-se lentamente no ar gelado do cômodo.
— Eu deveria? — perguntou Theodore.
O homem soltou uma breve risada.
— Depois de tudo o que fiz por você, achei que sim.
O silêncio se instalou entre os dois. O desconhecido observou a fumaça de sua própria respiração subir lentamente até desaparecer.
— Quantos anos já se passaram, Theodore? Quarenta? Quarenta e dois?
— Não sei do que está falando! — retrucou Theodore. — E o que está fazendo na minha casa?
— Sua casa?
O homem inclinou levemente a cabeça, como se refletisse sobre aquilo.
— Curioso. Na última vez em que nos vimos, você estava morrendo e não possuía sequer um quarto para chamar de seu.
Um arrepio percorreu a espinha de Theodore.
— Quem diabos é você?
— Um homem paciente.
Pela primeira vez, o estranho se levantou da cadeira.
Era alto e magro. Vestia um terno cinza-escuro antiquado demais para aquela época. Os cabelos grisalhos estavam penteados para trás com um cuidado quase cerimonial.
— O que quer de mim?
O homem sorriu.
Não havia maldade naquele sorriso.
Apenas a tranquilidade de quem aguardara muito tempo por aquele momento.
— Vim encerrar nosso negócio.
— Eu nunca fiz negócio nenhum com você.
— Fez.
— Está louco.
— Talvez.
O estranho se virou e deu um passo à frente.
— Mas isso não muda o fato de que você implorou por aquele acordo.
O coração de Theodore acelerou.
— Que acordo?
O homem permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então respondeu:
— O acordo que lhe deu quarenta e dois anos que não lhe pertenciam.
— Do que está falando? Eu nunca fiz acordo nenhum com você!
— É claro que não se lembra.
— O quê?
— Foi uma das condições.
Theodore sentiu o estômago se contrair.
— Que condições?
O homem retirou lentamente um cigarro do bolso do paletó.
— Você fazia muitas perguntas naquela época também.
Ele colocou o cigarro entre os lábios, mas não o acendeu.
— A diferença é que, naquela noite, você estava desesperado demais para esperar pelas respostas.
— Venha, sente-se. Trouxe um vinho.
— Eu não bebo mais.
— Ora, ora... pensei que iria querer comemorar sua aposentadoria.
O homem voltou a se sentar. Agora, Theodore podia vê-lo completamente.
— Venha. Sente-se. Esperei muito tempo por este drinque.
— Já está tarde. Quero que saia da minha casa.
— Eu sairei em breve. Assim que tomarmos uma única taça de vinho.
Com a ponta do sapato de couro, ele empurrou a cadeira vazia para a frente.
Theodore permaneceu imóvel.
O homem suspirou.
Então sua voz mudou.
Não ficou mais alta.
Não ficou mais agressiva.
Mas algo nela pareceu esmagar o ar do cômodo.
— Sente-se, Theodore.
O coração de Theodore falhou naquele momento.
— Não estou pedindo.
Theodore se senta de frente para o homem com as mãos tremulas.
Ele olhava aqueles olhos negros que pareciam duas jabuticabas.
— Beba. Vamos comemorar.
As mãos de Theodore tremiam enquanto segurava a taça.
— Comemorar o quê?
— Sua vida.
O homem ergueu a própria taça.
— Quarenta e dois anos. Mais do que muitos recebem.
Theodore observou o líquido escuro. O aroma era estranho. Familiar.
Como algo que ele havia sentido muito tempo atrás.
Muito tempo.
Sem saber por quê, levou a taça aos lábios.
O primeiro gole foi quente.
O segundo trouxe náusea.
No terceiro, o mundo desapareceu.
Ele se viu novamente naquela noite.
A chuva.
O frio.
O sangue.
O gosto metálico na boca.
A dor.
A certeza de que iria morrer.
E então lembrou.
Lembrou-se de estar ajoelhado na lama.
Chorando.
Implorando.
— Por favor...
Lembrou-se da figura parada diante dele.
Da mesma voz.
Do mesmo terno.
Dos mesmos olhos.
— Eu não quero morrer.
Lembrou-se de fazer a pergunta.
— Quanto tempo?
— Quanto você quiser.
— Quarenta anos...
A voz jovem de Theodore tremia.
— Não. Quarenta e dois.
Quarenta e dois anos.
O número retornou como uma martelada.
A memória continuou.
Casas.
Carros.
Empregos.
Promoções.
Festas.
Amantes.
Viagens.
Dinheiro.
Décadas inteiras desfilaram diante dele.
Mas algo estava errado.
As imagens passavam rápidas demais.
Vazias demais.
Não havia esposa.
Não havia filhos.
Não havia amigos.
Nenhum rosto permanecia por mais de alguns segundos.
A vida inteira parecia um corredor de hotel atravessado às pressas.
Então compreendeu.
Não havia vivido.
Apenas sobrevivido.
A taça escorregou de seus dedos.
Estilhaçou-se no chão.
O tempo finalmente o alcançou.
As mãos enrugaram primeiro.
Depois os braços.
A pele afundou sobre os ossos.
A respiração tornou-se difícil.
Décadas cobradas em segundos.
Theodore caiu da cadeira.
O homem levantou-se sem pressa.
Com cuidado, ajudou-o a se deitar na cama.
Como se colocasse um velho amigo para descansar.
Theodore já não conseguia falar.
Mas seus olhos permaneciam abertos.
Assustados.
Arrependidos.
O homem ajeitou o cobertor sobre seu peito.
Então caminhou até a porta.
Ao passar pelo espelho do corredor, parou por um instante.
Os cabelos grisalhos haviam desaparecido.
Agora eram negros.
A postura parecia mais firme.
Mais jovem.
Ele alisou as mangas do paletó.
— Você disse que queria viver, Theodore.
A mão pousou na maçaneta.
— Mas passou todos esses anos apenas sobrevivendo.
Então saiu.
E fechou a porta atrás de si.